Blogging in general


Augusto dos Anjos

Vês?! Ninguém assistiu ao formidável
Enterro de tua última quimera.
Sómente a Ingratidão — esta pantera —
Foi tua companheira inseparável!

Acostuma-te à lama que te espera!
O Homem, que, nesta terra miserável,
Mora, entre feras, sente inevitável
Necessidade de também ser fera.

Toma um fósforo. Acende teu cigarro!
O beijo, amigo, é a véspera do escarro,
A mão que afaga é a mesma que apedreja.

Se a alguém causa inda pena a tua chaga,
Apedreja essa mão vil que te afaga,
Escarra nessa boca que te beija!

Bloch monta pelotão de resgate

Quase trinta anos depois, Murilo Mello Filho lembra, como se vivesse hoje, aquela madrugada tensa e confusa de agosto de 1976. Ele assinala que, desde que o Chevrolet Opala verde que trazia Juscelino Kubitschek para o Rio de Janeiro invadiu a contramão do quilômetro 162,5 da Via Dutra batendo de frente contra uma carreta Scania que trafegava no sentido oposto e se transformou num amontoado de ferros retorcidos e vidros espatifados, a morte do ex-presidente é tratada com a irresponsabilidade dos boatos e a dramaticidade dos mistérios.

Murilo Mello Filho era um dos principais colunistas políticos da revista “Manchete” na época e rememora detalhes de uma noite singular em sua vida. Enquanto se discutia se o acidente poderia ter sido uma circunstância trágica de estrada ou um crime político, era também necessário tratar das cerimônias fúnebres. “Estava decidido que o velório seria realizado no Museu de Arte Moderna, mas Adolpho Bloch não se conformava”, afirma o escritor e jornalista. “Ele queria que Juscelino fosse velado na sede da “Manchete”, onde o ex-presidente tinha seu escritório no décimo-segundo andar.”

O dono da Editora Bloch tinha suas razões. Alegava que muitos dos que deram as costas a Juscelino Kubitschek em anos de ostracismo queriam naquele momento se apossar de seu cadáver e que a “Manchete” havia seu único e último refúgio. Foi, então, que teve a idéia de organizar uma espécie de pelotão de resgate com a missão de desviar o trajeto dos dois corpos que, por volta de 3h da madrugada, eram esperados pela diretora Niomar Muniz Sodré Bittencourt no Museu de Arte Moderna. Pediu que Murilo Mello Filho, o escritor Carlos Heitor Cony e o repórter Tarlis Batista, entre outros, partissem para a tarefa – um vale-tudo. “Foi muito difícil”, conta Mello Filho. “O motorista só aceitou mudar de percurso quando lhe demos uma boa gorjeta.”

Com o passar do tempo, um outro protagonista da missão de resgate – o escritor Carlos Heitor Cony – passou a vasculhar mistérios e estranhezas que até hoje cercam o fim do ex-presidente. Escreveu “JK – Como nasce uma estrela” e foi um dos autores de “O Beijo da Morte”, em que sugere que as mortes de Juscelino Kubitschek, João Goulart e Carlos Lacerda foram ações perpetradas pela Operação Condor – organização secreta criada em 1974 pelas ditaduras militares do Cone Sul para eliminar inimigos. (Procurado por NoMínimo, o escritor informou, por meio de sua secretária, que está de férias até o final de fevereiro, embora sua coluna continue saindo diariamente na “Folha de S. Paulo”.)

Na única vez em que escreveu algumas linhas sobre as cerimônias fúnebres, Carlos Heitor Cony não menciona o suborno revelado por Murilo Mello Filho, mas também reforça a desordem e a possibilidade dos restos mortais de Juscelino Kubitschek não estarem repousando no Memorial JK, em Brasília. “Quem não acreditar que não acredite”, diz ele na crônica intitulada “Coisas que acontecem”, publicada em 4 de junho de 2005 na página dois da “Folha”. A sua memória do episódio mistura realidade e ficção. Escreveu: “Do lado de fora, vi um rabecão saindo da garagem do instituto, com o Tarlis Batista ao volante, no banco da frente, pedindo ao povo que abrisse caminho. Meia hora após, o velório teria início com gente aos prantos, no saguão da ‘Manchete’.”

-Continua…

A dúvida acende seu primeiro sinal quando os esquifes de Juscelino Kubitschek e de Geraldo Ribeiro são retirados apressadamente de duas kombis em frente à sede da revista “Manchete”, na Rua do Russel, na zona sul do Rio de Janeiro.
É madrugada de 23 de agosto de 1976, uma segunda-feira. São poucas as pessoas que àquela hora – quase quatro horas da manhã – ainda estão ali. Parecem tensas, nervosas, estupefatas com a trágica morte do ex-presidente e do motorista que o acompanhara durante os últimos 36 anos. Mas, para se desvencilhar da presença ostensiva de policiais, quase todos à paisana, elas são rápidas e decididas: em não menos de três minutos, carregam os caixões para dentro do saguão da “Manchete” e os dispõem lado a lado, em frente a uma escultura de pedras, árvores e raízes de Franz Krajcberg.

Com a justificativa de que os cadáveres ficaram completamente desfigurados, em conseqüência da gravidade do acidente na Via Dutra na tarde anterior, os esquifes de Juscelino e Geraldo estão – e irão permanecer até o sepultamento – absolutamente fechados. São exatamente iguais, até na simplicidade. A madeira de pinho envernizada de ambos é lisa, as alças, douradas. Não há um único detalhe que os diferencie. Logo, é natural que o porteiro Gileno Almeida faça uma indagação óbvia, mas adequada: “Em qual dos caixões está o corpo do presidente?” Diante dos mesmos esquifes que começam a ser cobertos com cravos vermelhos, brancos e roxos, o repórter Tarlis Batista é resoluto. Afinal, só ele, entre os presentes, pode ter alguma certeza, pois, aboletado em uma das kombis, havia comandado o transporte dos corpos desde o Instituto Médico-Legal. Tarlis levanta o braço o direito e, com o dedo indicador: aponta, convicto: “O presidente Juscelino está no caixão à esquerda.”

Todos os que chegam fazem quase a mesma pergunta: “Em qual dos caixões está o corpo do presidente?” Tudo é muito igual e ninguém parece lembrar ou tem coragem de estender uma bandeira nacional sobre o ataúde de Juscelino Kubitschek. Até às 11h45, o corpo do político mineiro é velado no edifício da “Manchete” e 1.892 assinaturas são registradas nos dois livros de presença. Em seguida, sob um escaldante sol do meio-dia, um cortejo de cerca de três mil pessoas ganha as ruas do bairro da Glória, entra no aterro do Flamengo e carrega nas mãos o que deve ser o esquife do ex-presidente até o Aeroporto Santos Dumont, de onde seguirá para o sepultamento no Campo da Esperança em Brasília.

O velório de Geraldo Ribeiro, no entanto, prossegue até perto das 16h, quando pouco mais de 100 pessoas levam o caixão para o Cemitério São João Batista. Ele é enterrado no túmulo 410-B da quadra 12. Na sede da “Manchete”, a dúvida se instala de vez: em que detalhe ou em que diferença Tarlis Batista havia se baseado para indicar, com tanta certeza, que o ataúde de Juscelino Kubitschek fora colocado à esquerda?

Esta é apenas uma das muitas histórias que começam a emergir com a ressurreição midiática de Juscelino Kubitschek no rastro da minissérie da TV Globo e será contada por funcionários dos áureos tempos da Editora Bloch em livro que deve ser lançado em meados do ano. Além de narrar o apogeu e a decadência de um império jornalístico, a publicação – que aponta indícios e possibilidades – pode instigar ainda mais o imaginário popular sobre uma morte que ainda permanece nebulosa, enigmática, polêmica. “Não foi uma nem duas vezes que ouvi falar de um possível engano, uma troca despropositada”, afirma o escritor e jornalista Murilo Mello Filho. “Logo, o corpo de Juscelino Kubitschek poderia ter sido sepultado no Rio e o de Geraldo Ribeiro no Campo da Esperança, em Brasília.”

-Continua…

Quando ela pediu uma rabada caprichada, bem temperada e cozidinha, a admirei profundamente. Foi a confirmação de minha teoria: “Quem não tem frescura à mesa, não tem frescura na cama”. Era o sinal de que, assim como ela saborearia as partes traseiras do boi, se viraria com prazer para deixar que suas ancas fossem saboreadas. Mulher de fibra, de vontades, de ausência de frescuras.
Sempre associei o sexo à comida – ato antigo -, pois são extremamente parecidos. É por isso que todos comemos gente, que chupamos a carne, lambemos o corpo, degustamos a alma.

Fome é sexo. Sexo é fome.

Sempre ávidos por encher o estômago e a genitália.
Entretanto, pode-se pensar que, quem faz dieta, é um abstêmio em potencial. Nada disso. O indivíduo que se entrega à dieta é o mais desejoso de sexo de todos: ele quer o chocolate que não pode, o açúcar, as gorduras (a se apertar), a dopamina, o proibido, o ausente. É mais tesão, orgasmo ao cubo.
Amo aquela que topa saborear de tudo, amo aquela que se redime de paladares, mas, ainda assim, anseia. A vontade pode ultrapassar a fome – e é exatamente por essa razão que estimo as pessoas que encaram qualquer prato. Assim como ela, que estava apta a engolir rabadas, dobradinhas e doces abarrotados de recheio.
Dizem que o ser humano é estômago e sexo. E concordo.
A propósito: eu como de tudo.