Bloch monta pelotão de resgate

Quase trinta anos depois, Murilo Mello Filho lembra, como se vivesse hoje, aquela madrugada tensa e confusa de agosto de 1976. Ele assinala que, desde que o Chevrolet Opala verde que trazia Juscelino Kubitschek para o Rio de Janeiro invadiu a contramão do quilômetro 162,5 da Via Dutra batendo de frente contra uma carreta Scania que trafegava no sentido oposto e se transformou num amontoado de ferros retorcidos e vidros espatifados, a morte do ex-presidente é tratada com a irresponsabilidade dos boatos e a dramaticidade dos mistérios.

Murilo Mello Filho era um dos principais colunistas políticos da revista “Manchete” na época e rememora detalhes de uma noite singular em sua vida. Enquanto se discutia se o acidente poderia ter sido uma circunstância trágica de estrada ou um crime político, era também necessário tratar das cerimônias fúnebres. “Estava decidido que o velório seria realizado no Museu de Arte Moderna, mas Adolpho Bloch não se conformava”, afirma o escritor e jornalista. “Ele queria que Juscelino fosse velado na sede da “Manchete”, onde o ex-presidente tinha seu escritório no décimo-segundo andar.”

O dono da Editora Bloch tinha suas razões. Alegava que muitos dos que deram as costas a Juscelino Kubitschek em anos de ostracismo queriam naquele momento se apossar de seu cadáver e que a “Manchete” havia seu único e último refúgio. Foi, então, que teve a idéia de organizar uma espécie de pelotão de resgate com a missão de desviar o trajeto dos dois corpos que, por volta de 3h da madrugada, eram esperados pela diretora Niomar Muniz Sodré Bittencourt no Museu de Arte Moderna. Pediu que Murilo Mello Filho, o escritor Carlos Heitor Cony e o repórter Tarlis Batista, entre outros, partissem para a tarefa – um vale-tudo. “Foi muito difícil”, conta Mello Filho. “O motorista só aceitou mudar de percurso quando lhe demos uma boa gorjeta.”

Com o passar do tempo, um outro protagonista da missão de resgate – o escritor Carlos Heitor Cony – passou a vasculhar mistérios e estranhezas que até hoje cercam o fim do ex-presidente. Escreveu “JK – Como nasce uma estrela” e foi um dos autores de “O Beijo da Morte”, em que sugere que as mortes de Juscelino Kubitschek, João Goulart e Carlos Lacerda foram ações perpetradas pela Operação Condor – organização secreta criada em 1974 pelas ditaduras militares do Cone Sul para eliminar inimigos. (Procurado por NoMínimo, o escritor informou, por meio de sua secretária, que está de férias até o final de fevereiro, embora sua coluna continue saindo diariamente na “Folha de S. Paulo”.)

Na única vez em que escreveu algumas linhas sobre as cerimônias fúnebres, Carlos Heitor Cony não menciona o suborno revelado por Murilo Mello Filho, mas também reforça a desordem e a possibilidade dos restos mortais de Juscelino Kubitschek não estarem repousando no Memorial JK, em Brasília. “Quem não acreditar que não acredite”, diz ele na crônica intitulada “Coisas que acontecem”, publicada em 4 de junho de 2005 na página dois da “Folha”. A sua memória do episódio mistura realidade e ficção. Escreveu: “Do lado de fora, vi um rabecão saindo da garagem do instituto, com o Tarlis Batista ao volante, no banco da frente, pedindo ao povo que abrisse caminho. Meia hora após, o velório teria início com gente aos prantos, no saguão da ‘Manchete’.”

-Continua…