A dúvida acende seu primeiro sinal quando os esquifes de Juscelino Kubitschek e de Geraldo Ribeiro são retirados apressadamente de duas kombis em frente à sede da revista “Manchete”, na Rua do Russel, na zona sul do Rio de Janeiro.
É madrugada de 23 de agosto de 1976, uma segunda-feira. São poucas as pessoas que àquela hora – quase quatro horas da manhã – ainda estão ali. Parecem tensas, nervosas, estupefatas com a trágica morte do ex-presidente e do motorista que o acompanhara durante os últimos 36 anos. Mas, para se desvencilhar da presença ostensiva de policiais, quase todos à paisana, elas são rápidas e decididas: em não menos de três minutos, carregam os caixões para dentro do saguão da “Manchete” e os dispõem lado a lado, em frente a uma escultura de pedras, árvores e raízes de Franz Krajcberg.
Com a justificativa de que os cadáveres ficaram completamente desfigurados, em conseqüência da gravidade do acidente na Via Dutra na tarde anterior, os esquifes de Juscelino e Geraldo estão – e irão permanecer até o sepultamento – absolutamente fechados. São exatamente iguais, até na simplicidade. A madeira de pinho envernizada de ambos é lisa, as alças, douradas. Não há um único detalhe que os diferencie. Logo, é natural que o porteiro Gileno Almeida faça uma indagação óbvia, mas adequada: “Em qual dos caixões está o corpo do presidente?” Diante dos mesmos esquifes que começam a ser cobertos com cravos vermelhos, brancos e roxos, o repórter Tarlis Batista é resoluto. Afinal, só ele, entre os presentes, pode ter alguma certeza, pois, aboletado em uma das kombis, havia comandado o transporte dos corpos desde o Instituto Médico-Legal. Tarlis levanta o braço o direito e, com o dedo indicador: aponta, convicto: “O presidente Juscelino está no caixão à esquerda.”
Todos os que chegam fazem quase a mesma pergunta: “Em qual dos caixões está o corpo do presidente?” Tudo é muito igual e ninguém parece lembrar ou tem coragem de estender uma bandeira nacional sobre o ataúde de Juscelino Kubitschek. Até às 11h45, o corpo do político mineiro é velado no edifício da “Manchete” e 1.892 assinaturas são registradas nos dois livros de presença. Em seguida, sob um escaldante sol do meio-dia, um cortejo de cerca de três mil pessoas ganha as ruas do bairro da Glória, entra no aterro do Flamengo e carrega nas mãos o que deve ser o esquife do ex-presidente até o Aeroporto Santos Dumont, de onde seguirá para o sepultamento no Campo da Esperança em Brasília.
O velório de Geraldo Ribeiro, no entanto, prossegue até perto das 16h, quando pouco mais de 100 pessoas levam o caixão para o Cemitério São João Batista. Ele é enterrado no túmulo 410-B da quadra 12. Na sede da “Manchete”, a dúvida se instala de vez: em que detalhe ou em que diferença Tarlis Batista havia se baseado para indicar, com tanta certeza, que o ataúde de Juscelino Kubitschek fora colocado à esquerda?
Esta é apenas uma das muitas histórias que começam a emergir com a ressurreição midiática de Juscelino Kubitschek no rastro da minissérie da TV Globo e será contada por funcionários dos áureos tempos da Editora Bloch em livro que deve ser lançado em meados do ano. Além de narrar o apogeu e a decadência de um império jornalístico, a publicação – que aponta indícios e possibilidades – pode instigar ainda mais o imaginário popular sobre uma morte que ainda permanece nebulosa, enigmática, polêmica. “Não foi uma nem duas vezes que ouvi falar de um possível engano, uma troca despropositada”, afirma o escritor e jornalista Murilo Mello Filho. “Logo, o corpo de Juscelino Kubitschek poderia ter sido sepultado no Rio e o de Geraldo Ribeiro no Campo da Esperança, em Brasília.”
-Continua…